personagem: ISAAC ROCHA, UM HOMEM E VÁRIAS HISTÓRIAS
Novembro 13, 2008
por ROBÉRIO Coutinho
Um menino com um grande problema de saúde, um adolescente dedicado aos ensinamentos do mestre, um rapaz historiador, ator e poeta e um homem nas manifestações da cultura popular nordestina. Várias histórias, mas uma pessoa: Isaac Rocha, pernambucano de 43 anos, nascido no bairro da Várzea, no Recife
Em um hospital público do Recife, nasceu em 1965, Isaac Rocha de Lima, um menino negro e podre, que desde a infância, enfrentou os obstáculos da vida. Além dos problemas sócio-econômico, enfrentado pelos pais e cinco irmãos, também possuía limitações físicas, uma deformidade motora nos pés. Passou sete anos por um tratamento delicado, entre idas e vindas diárias, ao Hospital Barão de Lucena. Quatro anos após o início do tratamento, a recuperação do garoto ficou ainda mais complicada, pois foi morar com os seus pais, no município de Tapera, atual Bonança, distrito de Moreno, localizado a 34 km do Recife. Naquele momento, destacou-se a coragem e a persistência de Maria José Rocha de Lima, mãe de Isaac, ao enfrentar, diariamente, o longo percurso até o hospital. “Além de companheira, ela é a minha heroína, pois enfrentou a distância e ainda, a descrença dos vizinhos e amigos da família, relacionados à minha recuperação”, comenta Isaac.
De volta à Várzea e totalmente recuperado, livre da traumática rotina hospitalar, Isaac aproveitou a nova fase da vida para recuperar o tempo perdido. Ele era um garoto cheio de energia. Assim sendo, jogou bola, correu e brincou de roda, como toda criança faz. Inclusive as peraltices, características da idade. Aos 10 anos, conheceu o artista popular Arlindo Cavalcante Cabral, o Mestre Dida, que depois de verificar o interesse e dedicação do menino junto aos folguedos, convidou-o, imediatamente, para participar das manifestações culturais.
No côco-de-roda e, principalmente na burrinha, uma espécie de bumba-meu-boi em menor proporção, Isaac, aprendeu a cantar, dançar, interpretar, tocar instrumentos musicais, além de conhecer a história dos folguedos e respectivos personagens. Mas, sobretudo, ele vivenciou com o mestre Dida a simplicidade e alegria do brinquedo popular, durante o restante da infância, toda à adolescência e parte da vida adulta. Para Isaac, Dida é mais que um mestre, é um pai. E acrescenta, com um semblante triste: “depois que o mestre faleceu, no ano passado, os seus filhos de verdade querem acabar com a burrinha. Eles não valorizam a história do pai”. A Troça Carnavalesca Burra de seu Dida tem 43 anos, é a mais velha da Várzea e uma das agremiações mais antigas, nessa categoria, do carnaval de Pernambuco.
As manifestações populares além de elevar a auto-estima e de ter ensinado algumas expressões artísticas a Isaac, também o auxiliou na educação escolar. A disciplina ensinada e exigida pelo mestre ao discípulo, desde a organização do espaço ao estudo na escola, fez com que em 1989, ele entrasse na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), lá cursou história, tornando-se, naquela época, um dos poucos jovens universitários da Vila Arraes, comunidade da Várzea.
No mesmo período que esteve na UFPE, também participou das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), entidade ligada à Igreja Católica, que se utilizava do evangelho de Jesus Cristo para denunciar as injustiças sociais dos excluídos. Naquele contexto, por meio do folguedo do bumba-meu-boi, fundou o Boi Iluminado, com o objetivo de fazer valer o direito da comunidade. “Por ser uma manifestação artística e popular, o bumba chegava mais fácil na casa das pessoas, assim, utilizávamos dele para fazer uma reflexão social”, diz. Isaac se tornou Mateus, um dos principais personagens do Boi Iluminado.
Em 1996, mais voltado ao ciclo junino, Isaac fundou com outros artistas do bairro da Várzea, o movimento do Acorda Povo / Bandeira de São João. A manifestação é caracterizada por uma procissão de fiéis seguindo a bandeira que representa São João do Carneirinho, santo da Igreja Católica. “Aqui na Várzea é um dos poucos lugares que reunimos os católicos e os devotos do candomblé no mesmo evento” e acrescenta entusiasmado: “A bandeira de São João é uma realidade dos católicos, eles adoram o santo em cortejo religioso. O acorda povo é uma festa profana em homenagem a ogum, orixá afro-brasileiro”. Outra “brincadeira” junina que Isaac participou foi a quadrilha matuta tradicional. Nela, ele era o marcador, responsável em guiar a coreografia de todos os participantes.
Isaac Rocha é um artista com um vasto conhecimento e participação nos folguedos das manifestações da cultura nordestina. O artista é humilde, espontâneo, criativo e bastante extrovertido. Ele é casado e pai de dois filhos, e ainda, é ator e diretor de teatro. Escreveu e montou 15 peças populares direcionadas ao público infanto-juvenil, produzidas a partir de trabalhos sociais com crianças e jovens na região oeste do Recife, durante as décadas de noventa e nos anos 2000. Entre elas, as mais conhecidas são Boi Iluminado, Meninos abandonados, O grito da natureza, A peleja da natividade contra a maldição do capeta e Faz escuro mas eu registro e grito porque sou vida e história.
A produção de livros também é outra faceta de Isaac. Ele é escritor e possui alguns livretos de cordel, com enfoque à manifestação do bumba-meu-boi e a cidadania. Em 2000, escreveu A festa do boi bumba, no ano seguinte, o Bumba da Ilha. Em 2003/2004, Expressões gestos e ações na luta pela paz e em 2006, o Bumba de Paudalho. A publicação de maior destaque na carreira do escritor é o livro Vid’Amor (1991). Nele, o autor resgata as suas experiências de vida. Está na 4ª edição e vendeu cerca de 4 mil exemplares. O livro já é conhecido na Alemanha, Portugal e Espanha. “O Vid’Amor é a prática de uma vida e uma inquietação para o mundo”, afirma Isaac Rocha com empolgação.
Hoje – Isaac é professor do Estado. Em Paudalho, município que atua, utiliza-se das expressões da manifestação popular em sala de aula, criando um ambiente mais lúdico e inserindo os jovens aos valores dos folguedos nordestinos. “Eu gosto é de ver a alegria nos olhos dos meus alunos quando eles estão aprendendo. Acredito que era mesmo assim que meu mestre Dida olhava pra mim”, diz Isaac, com lágrimas nos olhos.
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